terça-feira, 29 de setembro de 2009

Dione

Ontem saí do hospital. O médico me deu alta porque já consigo andar e comer direito. Para andar precisei fazer muitos exercícios, o que me deixava cansada e, por isso, eu só queria dormir e assistir televisão.
Tenho assistido muito televisão. Mas existe algo de muito irreal em tudo o que eu assisto. Começo a achar que existe algo de errado nos programas, nas novelas, nos filmes. A televisão também me deixa cansada, a cabeça dói.
Ainda não lembro de nada. Perguntei para Cléo se nosso pai tinha morrido. Ela me respondeu que também não sabia, porque ela mesma nunca o vira. Cléo me contou que ele sumira dois meses antes que ela nascesse. Saiu para trabalhar e nunca voltou. Deixou nossa mãe com duas filhas para criar sozinha. Fiquei com pena de minha mãe, ela parece ser tão boa, tem sido tão boa para mim. Eu fico pensando se eu a conhecia antes de me acidentar. Cléo diz nossa mãe sempre foi assim: calada, religiosa, supersticiosa, simples, boa. Eu acredito, mas penso que todos guardam muitas coisas em seus pensamentos. Não digo que ruins, mas mais profundos do que as histórias de santos e ditos de seus avós.
Eu não lembrei e minha mãe também não me contou, mas ela é costureira. Eu percebi porque ela sempre diz: "Tenho que ir porque fulana vai em casa fazer a prova do vestido da formatura" ou "tenho que cortar o vestido de beltrana". Gosto das roupas dela e eu disse isso. Ela me informou que muitos dos seus vestidos foram feitos por ela mesma.
O tempo está feio, mas sentei na cadeira de praia do quintal para tomar um ar. Ontem estava melhor, aquela chuvarada barulhenta... prefiro do que esse céu nublado com ar abafado.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Chuva

Agora pouco estava chovendo muito. A enfermeira veio correndo fechar a janela porque ainda não consigo correr para fazê-lo. Já estou andando, também estou fazendo fisioterapia.
A chuva me fez pensar em muitas coisas. Estava pensando na morte. Cléo disse que meu noivo morreu no acidente. Eu não tive reação, porque eu não sabia que era noiva. Não lembro dele, mas sei que, se eu lembrasse, estaria chorando muito. O que a morte significa para quem fica afinal? Pessoas morrem todos os dias e a maioria não se importa com essas mortes, só seus parentes e amigos sofrem com isso, só as pessoas que as conheceram. Quando você não lembra de alguém, é como se não tivesse conhecido e isso não tem importância. Fico triste em saber que nada é importante para mim. Também fico aliviada por não sofrer. As lembranças são o único motivo pelo qual as pessoas sofrem quando alguém lhes falta. Como eu não lembro, não sinto falta, não sinto culpa.
A chuva foi embora, a enfermeira disse que eu posso ligar a televisão ou conectar o cabo de energia do laptop na tomada. Acho que vou assistir o filme da tv.

sábado, 19 de setembro de 2009

Primeiro dia ainda

Em poucos minutos, a moça, minha irmã, já estava de volta com a enfermeira. Meu pulso foi medido, a enfermeira me disse que o doutor chegaria em breve, assim como minha refeição. Foi então que eu percebi que estava faminta e que mal conseguia me mover por causa do soro e dos aparelhos. Sentia dor em cada um dos meus membros, mas queria sair daquela cama, daquele quarto, daquele hospital.
Minha mãe e minha irmã estavam tristes pela minha falta de memória e, por isso, tentavam me fazer lembrar de alguma coisa. As duas se apresentaram: minha mãe, Dione e irmã, Cléo. Falaram sobre o acidente e sobre as pessoas que haviam me visitado. Eu ouvia mas não reconheço nada. De qualquer modo, disseram que acreditavam que eu logo pudesse me lembrar de tudo e que minha sobrevivência fora milagrosa. Ao ouvir isso, tive medo e movimentei minhas pernas e elas me obedeceram e doiam.
Quando o médico chegou, fui examinada e os aparelhos foram desligados. Também recebi uma sopa e, por isso, não precisei mais do soro. Uma cadeira de rodas foi trazida até o quarto e fui ajudada a ir ao toalete, faltava-me forças para ficar em pé sozinha.
Cléo teria que ir embora e deixou seu laptop comigo. Ela disse que se eu escrevesse, talvez pudesse lembrar de tudo mais rapidamente. Também me ajudou com a criação do diário. Depois que Cléo foi embora, fiquei só com minha mãe. E, depois de dormir durante 3 horas, escrevi um pouco. O cansaço não me deixou escrever mais.
Isso foi ontem. Hoje também já estou cansada. Minha mãe foi para a casa e Cléo veio ficar no lugar dela. Hoje e ontem, o médico não permitiu que eu recebesse outras visitas. Achei bom, porque não lembro mesmo de ninguém.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Primeiro dia

Acordei com o sol brilhando no quarto branco. Uma mulher e uma moça estavam ali, minha mãe e minha irmã, mas não me lembro delas. Não me lembro me nada.
A moça gritou "mãe, ela acordou! Vou buscar a enfermeira" e saiu do quarto. A mulher segurou minha mão e me chamou de filha. Ela queria saber se eu estava bem. Eu respondi que sim e queria saber onde estava.
- No hospital, minha filha, desde que se acidentou. Estava há um mês desacordada.
- E quem eu sou? A senhora é minha mãe?
Ela não respondeu, ficou me olhando por alguns instantes e vi seus olhos lacrimejarem. Não insisti, mas ela respondeu:
- Sou sim, pena que não lembre.
- Mãe, qual é meu nome?
- Sophia, minha filha... Sophia Doria.